Com base no artigo denominado “A teoria winnicottiana do amadurecimento pessoal”, de autoria do Prof. Dr. Zeljko Loparic, foi feito um breve descritivo das diferenças entre o modelo de psicanálise tradicional (Freud, Klein, Bion, Lacan) e o modelo winnicottiano.
(...) A psiquiatria é uma ciência que concebe o ser humano como um mero fato, um efeito de causas, uma coisa em conexão causal com outras coisas da natureza. Como seres humanos são vistos como coisas, eles podem também ser tratados como coisas. Nada impede, em particular, que os distúrbios da vida humana sejam submetidos à manipulação meramente técnica. (...)
Na psicanálise, notamos a existência de um conjunto de idéias-guia, tais como desejo, angústia e compreensão, que parecem pertencer a um outro paradigma. Em sua clínica, Freud trabalhava como psicólogo, ele se interessava pelo sentido de sintomas e pela compreensão de sintomas. Mesmo assim, o quadro metapsicológico geral no qual Freud situava seus estudos do ser humano ainda era o das ciências da natureza. Ele concebia o psiquismo humano como um aparelho movido a forças em conformidade com o princípio de causalidade. Apesar de buscar “libertar” o homem da dor e da doença, Freud não conseguiu ultrapassar o naturalismo e considerar seriamente a idéia de que o ser humano não era apenas uma peça da natureza (uma molécula gigante ou coisa parecida), mas um ser dotado de liberdade. Por essa razão, ele tampouco pôde reconhecer que existiam sofrimentos humanos que deveriam ser estudados única e exclusivamente à luz da peculiar condição humana.
Na psicanálise, essa virada foi realizada por Donald W. Winnicott. Winnicott recusou explicitamente o naturalismo e o determinismo. Não que ele ignorasse o físico, mas ele entendia que existiam problemas de saúde que não podiam ser postos na conta das funções fisiológicas e tratou de elaborar uma ciência de, pelo menos, uma parte desses distúrbios. Essa ciência é a psicanálise winnicottiana. Ao constituí-la, Winnicott mudou os pressupostos essenciais da psicanálise tradicional, operando a transição do modelo naturalista e objetivante do ser humano, característico da psquiatria e da psicanálise tradicional (Freud, Klein, Bion, Lacan) para um modelo decididamente não-naturalista. Dada a conexão íntima entre a metapsicologia de Freud e a metafísica moderna, podemos chamar o modelo winnicottiano do ser humano de pós-metafísico. É nesse novo paradigma que foi desenvolvida a teoria winnicottiana do amadurecimento pessoal. (...)
Referência Bibliográfica:
[1] LOPARIC, Z. 1999. "A teoria winnicottiana do amadurecimento pessoal", in: Infanto, vol. VII, suplemento 1, 1999, pp. 21-23.
Para saber mais sobre o autor, indicamos o site: http://www.zeljko.loparic.com/
Há um outro artigo de Zeljko Loparic muito bacana, pensando na quebra de paradigmas nas ciências e nos campos de conhecimento em geral (a discutir sobre a psicanálise ser uma ciência ou uma prática clínica etc.). Trata-se do artigo intitulado WINNICOTT: UMA PSICANÁLISE NÃO-EDIPIANA - e pensar o quanto uma certa ideia do "complexo de Édipo" circula no senso comum... Vejam lá:
ResponderExcluirhttp://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs17/p17_14.htm
Obrigada pelo seu comentário.
ResponderExcluir