O artigo que sugerimos a seguir: "O social e o político na transição pós-moderna", a exemplo do " Um discurso sobre as ciências(...)", também discute o século XX e a mudança para um paradigma pós-moderno. Também de autoria de Boaventura, o texto trata dos pilares sobre os quais se assenta o projeto "sócio-cultural" da modernidade e apresenta os roteiros que discutem os sintomas do paradigma pós-moderno.
Essa primeira parte, retirada do artigo, traz uma breve análise do autor sobre o século XX :
"O Século XX ficará na história (ou nas histórias) como um século infeliz. Alimentado e treinado pelo pai e pela mãe, o andrógino século XIX, para ser um século prodígio revelou-se um jovem frágil, dado às maleitas e aos azares. Aos catorze anos teve uma doença grave que tal como a tuberculose e a sífilis de então, demorou a curar e deixou para sempre um relógio. E tanto que aos trinta e nove anos teve uma fortíssima recaída que o privou de gozar a pujança própria da meia idade.
Apesar de dado por clinicamente curado seis anos depois, tem tido desde de então uma saúde precária e muitos temem uma terceira recaída, certamente mortal. Uma tal história clínica tem-nos vindo a convencer — a nós cuja inocência está garantida por não termos escolhido nascer neste século — que, em vez de um século prodígio, nos coube um século idiota, dependente dos pais, incapaz de montar uma casa própria e ter uma vida autônoma.
Eu próprio escrevi que o século XX corria o risco de não começar nunca ou, em todo o caso, de não começar antes de terminar. Com outras palavras e metáforas a mesma convicção ou preocupação tem estado presente, consciente ou inconscientemente, nos muitos balanços do século que, um pouco por toda a parte, se têm vindo a fazer. Não admira, pois, que muitos desses balanços tenham sido em verdade balanços do século XIX e não do século XX como proclamam.
Mas como, ao contrário do que queria Hegel, a história está para a razão assim como a astúcia está para a esperteza saloia, têm-se vindo a acumular em tempos recentes sinais de que esta biografia do século está provavelmente incompleta e de que os balanços e os enterros foram quiçá prematuros.
Apropriando para si uma condição social que tornou possível para todos nós, o século XX parece estar disposto a gozar a terceira idade em plena atividade e, mais do que isso, a desfazer, entre o sonho e o pesadelo, as verdades que se tinham por feitas a seu respeito. A questão que se põe é se terá tempo para refazer, a partir dos estilhaços em que agora se compraz, o que, doutro modo, terá de ser feito pelo século XXI.
Apesar de o século — mais um dos seus feitos ambíguos e surpreendentes — ter transformado o tempo em falta de tempo, a minha resposta é que admito que sim. É o que procurarei mostrar a seguir, com uma certa dose de otimismo trágico que colho de Heidegger."
Para ler o texto todo, é só acessar o link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64451993000300010&lng=en&nrm=iso
Referências:
[1] SANTOS, B. de S. 1993. "O social e o político na transição pós-moderna". in: Lua Nova. no. 31, p.181-208. São Paulo.
(disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64451993000300010&lng=en&nrm=iso)
[2] SANTOS, B. de S. 1988. "Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna". in: Estudos Avançados. vol. 2, no. 2. São Paulo.
(disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141988000200007&lang=pt)
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